Eu sou um leitor meio compulsivo – e gosto mesmo de ler, desde sempre. Acho que esse hábito começou ainda na infância, quando tive um problema nos rins e precisei ficar muito tempo em casa. Foi um período difícil, dos que parecem não passar, mas também foi o que me formou. Como não podia sair, comecei a viajar para dentro dos livros e nunca mais parei.
Meu pai também lia bastante. Apesar de tê-lo perdido muito jovem, tenho uma lembrança nítida dele sempre com um livrinho na mão, daqueles romances de faroeste, bem populares na época. Pode não ser a literatura mais refinada, mas foi a primeira que vi de perto e foi ali que alguma semente foi plantada em mim.
Com o tempo, descobri outras leituras que se tornaram permanentes na minha vida. Um livro que me marcou profundamente foi Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Já li pelo menos três vezes. A dicotomia entre Sancho Pança, com sua visão prática do mundo, e o Dom Quixote, com seus sonhos grandiosos, sempre me encantou. Li pela primeira vez na faculdade, e a cada releitura descubro algo novo.
Outro livro que marcou a minha geração – e a mim, em especial – foi Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas, de Robert M. Pirsig. Trata-se de uma espécie de filosofia de estrada, na qual o autor, um professor que já havia passado por eletrochoques, viaja de moto com amigos e reflete sobre os limites entre a razão e a loucura. É um livro sobre entender a vida com as ferramentas que a gente tem – e com as peças que, às vezes, não se encaixam direito.
Existem dois autores que me acompanham há muito tempo. Um deles é o Eduardo Giannetti, pois usei seus livros – como O Valor do Amanhã, O Anel de Giges e Felicidade – quando trabalhava com finanças pessoais. E o outro é Liev Tolstói, por quem tenho verdadeira admiração. A Morte de Ivan Ilitch é uma obra que nos obriga a pensar em nossa própria vida e, embora pequeno em tamanho, é absolutamente denso e impactante. Li ainda jovem e, depois, algumas outras vezes.
AMBIÇÃO SOB MEDIDA
Tem um conto de Tolstói que levei muitas vezes para a sala de aula. Chama-se De Quanta Terra Precisa o Homem? e acompanha a trajetória de Pakhóm, um camponês simples, mas obcecado pelo desejo de ter mais terras. Certa vez, durante uma visita de sua cunhada, ele reflete em voz alta “Se eu tivesse muita terra, não temeria nem mesmo o próprio diabo”. Mas o que ele não imaginou é que o próprio diabo estava escondido em sua casa, à escuta, e decide atiçar ainda mais essa vontade. Pakhóm conquista novas propriedades, aumenta suas posses, mas nunca está satisfeito. Até que ouve falar de um lugar distante, onde os bashkires oferecem um negócio tentador: por uma quantia simbólica, ele poderia ficar com toda a terra que conseguisse percorrer a pé em um único dia. Porém havia uma única condição: voltar ao ponto de partida antes do pôr do sol. Se não conseguisse, perderia tudo. A cada passo, Pakhóm varia entre momentos de delírio e lucidez. Ele calcula, hesita, avança, sonha. E é justamente essa corrida cega que o leva ao limite.
Por diversas vezes, levei o conto para a sala de aula, como ponto de partida para conversar sobre ambição. Ao longo dos meus anos de docência, essa foi uma pergunta que repeti muitas vezes para os alunos: “O que é preciso para ser rico?” – e a resposta quase sempre era: “dinheiro”. Então eu insistia: quanto dinheiro? Porque a verdadeira questão não é ter, é saber quanto basta. Muita gente passa a vida inteira correndo atrás de algo que nunca se deu ao trabalho de definir. E assim, mesmo conquistando muito, segue sentindo que ainda falta tudo.
LIVROS QUE EXPANDEM O OLHAR SOBRE O MUNDO
Outro livro que me toca muito é A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera. A obra explora os contrastes entre peso e leveza, liberdade e responsabilidade, por meio da vida de quatro personagens na antiga Tchecoslováquia. Ao longo da narrativa, o autor reflete sobre as escolhas humanas, o amor, o acaso e a existência. É um romance filosófico que questiona o sentido da vida e das decisões que tomamos.
Na minha área de atuação profissional, gosto muito de Desafio aos Deuses, de Peter L. Bernstein, que conta a fascinante história do risco. O autor mostra como o conceito de risco surgiu na sociedade – e tem até aquela famosa menção à aposta sobre a existência de Deus, em que se discute se vale a pena viver como se Deus existisse, mesmo sem ter certeza disso. O raciocínio é curioso: talvez seja melhor pagar o pequeno preço de acreditar do que correr o risco da danação eterna.
Um livro recente que gostei bastante foi A Segunda Montanha, do David Brooks. Ele fala sobre as duas grandes montanhas da vida: a primeira é a da conquista pessoal, a de vencer no mundo. Mas chega uma hora em que isso perde o sentido, e aí a gente começa a escalar a segunda montanha, que tem mais a ver com propósito.
Yuval Harari também é um autor que acompanho com interesse. Homo Sapiens, Homo Deus e 21 Lições para o Século 21 trazem uma visão ampla da nossa trajetória e dos dilemas atuais. Além disso, oferecem uma leitura ampla, provocadora e acessível sobre a história da humanidade, nossas conquistas, contradições e angústias.
Na área de finanças, recomendo três livros fundamentais para quem não é especialista: O Investidor de Bom Senso, de John C. Bogle; Psicologia Financeira e O Mesmo de Sempre, ambos de Morgan Housel. São livros que ajudam a não cair em armadilhas que hoje estão por toda parte, especialmente nas redes sociais.
LEITURAS DO PRESENTE
Para encerrar, menciono dois livros que leio atualmente. Um deles foi escrito por Ray Kurzweil e chama-se A Singularidade Está Próxima: A Fusão do Ser Humano com o Poder da Inteligência Artificial. Nele, Kurzweil explora como a fusão entre inteligência artificial e o cérebro humano poderá ampliar nossas capacidades cognitivas e transformar radicalmente a vida na Terra. Ele prevê uma era de abundância, com tecnologia acessível, cura de doenças e extensão da vida.
O livro discute as promessas e os perigos desse futuro, marcado pelo avanço rumo à singularidade. O outro chama-se A Sociedade Paliativa, de Byung-Chul Han, que analisa como a sociedade contemporânea evita o sofrimento a qualquer custo, promovendo uma cultura do alívio imediato e da positividade artificial. O autor critica essa negação da negatividade como um empobrecimento da experiência humana e do pensamento.
O LEGADO DA LEITURA
O impacto da literatura na minha vida é profundo. Ler permitiu com que eu explorasse outras perspectivas, enfrentasse realidades diferentes da minha e, muitas vezes, saísse de um lugar confortável. Quando penso no que a leitura me proporcionou, talvez o mais significativo tenha sido ver meus filhos se tornarem leitores dedicados – daqueles que realmente leem muito, com interesse genuíno. Tenho convicção de que o hábito da leitura se transmite, quase naturalmente, quando vivido com autenticidade.

Esta matéria foi publicada originalmente na edição de outubro de 2025 da Revista Amicci do Instituto Norberto Bobbio entrevista feita pela pesquisadora Julia Albergaria.
